sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Letras para um ano novo.

Último dia da década. Você teve todas as chances de fazer o que gostaria. Com certeza ainda há muito a fazer. Se há coisas que você planejava e que não se concretizaram, aproveite para realizar isso em uma nova década, no novo ano e em uma nova harmonia.

Desculpem a demora para fazer um post, mas mesmo que curto e só agora, é de coração. Feliz 2011 para todos os nossos queridos leitores!

Um beijo e abraço, B.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A grande conversa

Tomou assento ao meu lado. Era um fim de tarde comum por aqui, mas para nós, estrangeiros do mesmo país, era mais um retrato lindíssimo de um céu que é diferente de todos os outros. Temos os bons olhos de perceber os defeitos e a dificuldade de conseguir lidar com eles. Talvez por isso acabemos encontrando coisas menores para valorizar, coisas que não temos em nosso país. Engana-se quem pensa que de Norte a Sul vivemos em uma mesma nação. Para aqueles que se contentam com bandeira, hino, timecos de futebol ou programação da TV, tudo bem. E mesmo esses - maioria, é verdade - nutrem os mais profundos preconceitos e discriminações pela gente de toda parte. Não é preciso ir para outra Região, para outra raiz embrionária ou de costumes. Os nortistas odeiam os sulistas porque pensam que estes os odeiam por não os conhecerem. É por aí, desconhecemos pela imensa distância social e cultural, agravada pela física. Mas os sulistas odeiam-se entre os próximos, assim como os outros do Brasil. Acho que é algo a se pensar. Matutava tudo isso enquanto via as crianças feias e magras brincando de não fazer nada, brincando de serem crianças na rua, pois curiosamente é aqui onde elas têm espaço para isso. Na casa delas, nunca foram tratadas como tais, e depois temos de ouvir as famílias reclamando.


Na Pedreira, bairro miserável (não se chama de favela pelos recortes de classe média-alta entre os canais e casinhas horríveis) de Belém do Pará, as crianças passam muito tempo na rua. As pessoas daqui dizem que é devido à violência, estufam o peito enquanto cantam: "No centro não se pode fazer nada do que fazemos aqui, andar à noite, tomar uma cervejinha com os amigos ouvindo nossa música até a hora que bem entendermos, lá é violento, aqui ainda se tem um pouco de sossego". Mas não é por essa sensação que elas ficam na rua. Elas não querem ficar em casa.

Tenho ido correr praticamente todas as tardes, preferencialmente sob o pôr-do-sol desse céu belíssimo. E finalmente cheguei à conclusão de que realmente esse é o bairro que resume essa cidade. As crianças nós podemos entender. Mas os adolescentes, jovens, adultos... é difícil. Eu já conheci outras periferias, já li sobre as periferias, cortiços e guetos antigos, de várias épocas. A música tem uma função linda na vida de todas, e principalmente, de todas essas pessoas. As canções trazem saudade, cultuam seus mitos sociais, malandros, vigaristas, o tipo de gente que tenta fazer o que pode com o que lhe é dado. Entregam-se às coisas belas da vida, aos sonhos, encontram espaço para protesto, para ativismo e organizar-se através de ritmos. Lembram-se de seus antepassados. A música é a palavra que todas essas vozes não sabem dizer. Mas não é o que acontece aqui.

Compreendo que não seja só aqui, há músicas demais que não falam absolutamente nada, mas é difícil aceitar que as pessoas percam seus momentos familiares, de descanso e que deveriam somar algo, ou simplesmente ajudar a aguentar, com letras que exprimem... nada. Que nem ao menos trazem palavras inteiras, ideias melhores. Dotadas de letargia e má vontade. As pessoas estufam seus peitos para cantar meros grunhidos. Elas têm todo o direito de fazer o que bem entenderem e escutarem o que gostam. Mas é só isso o que fazem sob todos os dias em que o sol se puser. Não se vê melhora, progresso. Uma avenida má projetada está há 3 anos em obras, e nunca termina. E este é um problema que aflinge os rabiscos da classe média nessa pintura feia, rabiscos que se somam à confusão da carência em todo tipo de políticas públicas. Eu sempre digo e ainda não vi erro, que a vida de uma pessoa que vem morar aqui se divide em Antes e Depois de Belém. Nós adoramos dar esses marcos às coisas, aos acontecimentos decisivos. Mas, à guia da calçada, a figura alta parecia conversar comigo por esses pensamentos. Uma conversa muda em meio ao barulho e caos do final da tarde. Mães com suas pencas de filhos voltando com pão e algumas sacolas com os gêneros mais apreciados daqui. Muitos homens em suas bicicletas, contra todas as leis de trânsito, que em terra sem lei, são apenas piadas que os fazem rir ante seus protestos. Até que detive minha atenção naquilo que ele tinha a dizer. Com muito ardor e sacrifício consegui me livrar das ideias do que uma pessoa vai dizer antes que fale. Só assim se pode aceitar ou recusar aquilo da maneira correta.
E com uma conversa, que tantas vezes apareceu aqui neste blog, permeadas por silêncios, pensamentos e gritos, aquelas formas de expressão de que tanto gostamos, meu ano de 2010 começou a se encerrar. E a insistência dessas conversas quer deixar a todos vocês o diálogo. Dos dedões, das garotas apaixonadas que por fim caíram, de mim para comigo mesmo através de cartas, e finalmente, de nós, P. e B. do Sp/Pa com todos vocês. Um diálogo mudo, onde vocês falam por nós em suas cabeças e respondem nelas também. O diálogo mais bonito que eu posso oferecer. Quando o homem começou a falar, eu comecei a perceber o próximo ano.

P.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nunca duvide do poder de um adeus

Quando baterem à sua porta, com o rosto inexpressível por não saber como dizer o que tem de ser dito ou agir da forma que não se quer, quando você olhar para esta cena e, num lance único de predição, saber o que irá se passar, acredite em mim, a força de todos seus pensamentos que diziam como seria será ínfima... nunca duvide do poder de um adeus e do que ele causa nas pessoas. Nunca perca a oportunidade de dizê-lo, mais uma vez, acredite em mim, pois ele causa transformações em todos aqueles que não têm coragem de admitir, fazer ou encarar as coisas sob a convivência e a proximidade. Isto significa que ele é útil sobre todas as pessoas. Porque afinal de contas, todas choram em um adeus e não sabem como dá-lo.

Por isso as maiores despedidas acontecem aos poucos, com pequenas ações e gestos impensados, palavras que não se sabe ao certo como saíram. A despedida por cada omissão corrói ao ponto de se saber e desejar dizer adeus. Mas essas não são feitas, acontecem. E como as coisas que acontecem, não se sabe em que irão resultar. Não deixe as pessoas se despedirem de você, nunca, antes que lhe digam adeus...

Essas não irão voltar mais.

P.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Eu tive as melhores intenções...

Sabem, esse primeiro ciclo chegou ao final. A minha intenção era conseguir muitas coisas nesse mês. Superar-me, aproveitar, desvincular, cativar e situar-me. Bem, estive longe daquilo que gostaria de ter feito, no começo do ano reclamava da falta de tempo, e não quero terminá-lo fazendo a mesma coisa. Ele ficou curto e me sugou, mas acho que deste ciclo sai um caminho que segue. Começa no dia 20 próximo mas já incia-se final de semana. Estive perto daqueles que gostaria de estar, na verdade, perto o bastante de alguns, com uma suavidade de convivência que me surpreendeu e deu ânimo. Próximo o bastante de outra, que por alguns momentos cativou algo que estava perdido, mas não fez bem achá-lo. Acho que finalmente acertei o que preciso buscar mas procurei na pessoa errada. As mulheres são incríveis nisto: não dizem o que querem mas falam aos poucos para você ver se entende. A minha intenção de cativar não deu certo.

Foi um mês difícil, meio de novembro e meio de dezembro, meio solitário e bastante irritante no final, mas, afinal de contas, o que importa mesmo são as ideias do que posso ou não esperar para o ano que vem, e principalmente, ter entendido por quem posso e não devo mais esperar. Eu tentei fazer tudo certo, mas agora eu ratifiquei que não são as intenções que movem o mundo. São as interpretações que o movem. E eu entendi todos os recados.

P. hurricanezado, que lindo. Sempre na hora certa surge a música ideal. Agradecendo também pelos comentários que vocês têm feito nos posts, são todos muito especiais para mim e tenho certeza de que para a B. também! Por falar nela, juro que logo mais ela aparece por aqui.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A última carta a mim mesmo

... Antes de vocês lerem este post, peço que esvaziem seus corações e suas mentes. Ele foi feito com todo meu amor, paixão e empenho, como todos os que são feitos aqui no Sp/Pa. Mas ao contrário dos meus anteriores, que eram mais pessoais, generalistas e restritamente direcionados, o post que segue é uma grande homenagem a todos aqueles que eu pude recortar, desenhar, colar e finalmente costurar em mim. Todas as minhas palavras tentam expressar o que é muito difícil ao fazer arte: a intensidade de um beijo por quem não beija nem é beijado.

Gostaria também que o lessem ouvindo a música que marcou esse semestre final de 2010.

Este é o começo da última carta a mim mesmo, e é assim que eu começo a contá-la para vocês...
Há 5 anos estou aqui. Vir sem nem ao menos saber como eram as árvores foi bastante complicado. O tempo fez o que sabe, passou, aproximou e distanciou. Ele é importante nesta e em qualquer outra história, parece ser dono de si e de todos nós, que como naquelas coisas que entendemos, aceitamos, mas insistimos em brigar, achamos que podemos atrasá-lo ou evitá-lo. Pelo lado bom, o tempo seca as folhas. Quase todos chamam de morte, mas eu, minhas folhas, chamo de secar. Gostaria que vocês também vissem assim. Vocês são folhas, que secam mas servem de alimento para outras e para outros. Quando vocês deixam de existir, permitem a existência de outros, fazendo parte delas e as sustentando. Aqueles que admitem a morte aceitam a ideia de não fazerem parte da existência dos que ficam.

Particularmente, o último ano foi muito especial. O vento soprou sobre a maioria de nós, soprou fraco ainda, mas nos tirou de nossas salas e de perto da maioria de nossos amigos do ano passado. Fizemos novos, mais fortes e nos tornamos cúmplices, de matérias, opiniões, de 12 horas diárias e de todos os dias que o ano pode prover. Vocês sabem que o vento irá soprar, implacável, logo mais. É apenas questão de tempo e não depende de suas vontades. Mas o bonito, com relação ao vento, é sua diferença com o tempo. A vontade de cada uma de vocês é determinante para onde, como e quando o vento irá soprar. Quase todos chamam de livre arbítrio, mas eu, minhas folhas, chamo de vontade. Querendo ou não, o que acontecerá com vocês depende do que fizerem, não? Isso acontece porque mesmo com o vento implacável, todas têm liberdade para planar no ar, dificultarem, ou lançarem-se com mais ímpeto, chegando antes, ou até mesmo se desviando.

Eu conheci religiosas (como ignorar a ignorância milenar e o amor profundo pela tolerância?), liberais (as que mesmo com pouca convivência, pousam ao seu lado e abrem-se ao sol, sem medo de queimaduras nem reflexões mal feitas), doces (tanto na cama quanto com caneta em mãos, hábeis e entregues, daquele tipo que lhe encanta em qualquer coisa que façam), ácidas (de opiniões fortes e lutadoras, que não aceitam desdobramentos nem novos lugares, agressivas mas ainda sim são folhas, e acabam admitindo no final das contas), barulhentas (que viveram boa parte de suas vidas em comunhão com a arte - o que realmente nos torna humanos, porque a racionalidade é uma mera convenção daquelas que nos torna muito simplórios e afastados de nossa essência, enquanto a arte nos une aos dois, à nossa natureza e à nossa natureza) e todos os outros tipos de folhas, daquele tipo que você não sabe como separar, como interjeições errantes que simplesmente surgem em meio à sua vida e aniquilam seus valores, seus ideais e laços.

Entre todas vocês, entre irmãos que ganhei em sangue, suor e técnica, espírito, corpo e dedicação - as grandes folhas do judô - as grandes folhas do rock, as grandes folhas do meu antigo prédio, do meu antigo colégio, e as especiais novas folhas desse derradeiro ano de colegial. Entre todas vocês, eu ajoelhei-me e escolhi, uma a uma, aquelas que eu gostaria de costurar à minha carne, fazendo de mim uma colcha de retalhos de todas vocês. Lembranças, gostos, ideias e objetivos, todos nós compartilhamos vários destes, e iremos difundi-los até o final de nossas existências.

Muitos de vocês, afinal de contas, não sabem minha história. Alguns sabem de meu QI, de minha capacidade de organizar pensamentos de todos os gêneros e exercer todas as habilidades possíveis de maneira invejável, sabem que não sei nadar, dançar nem andar de bicicleta. Sabem que se reencarnações existem, Casanova foi um dos que tropeçaram em mim e deixou seu espírito apaixonado e apaixonante vivo comigo. Conhecem algumas de minhas desventuras amorosas, a interpretação de muitos de meus textos, e já ouviram algumas de minhas letras. Partilharam de pensamentos que foram evoluindo do agnosticismo ferrenho à sensação de liberdade (marcada à pele) liberalista em todos os sentidos. Sabem de minha infância conturbada e tumultuada por mudanças, que nunca serviram de desculpa para nenhuma de minhas ações. Também sabem que tenho por essência centralizá-las em mim, desvinculando-as de terceiros ou entidades quaisquer. Sabem que me gabo pelos prós e sofro silenciosamente pelos contras de se ser assim.

Mas apesar disso parecer muito sobre uma pessoa, ainda está longe de ser a minha história. Penso que é impossível conhecer alguém de verdade e totalmente. E que se você quiser ao menos entender a história e as ações de alguém, basta você ter duas coisas: a capacidade de relativizar e saber aquilo que a pessoa acredita. O que nós acreditamos faz de nós o que seremos. Pois baseamos nossas ações e consequentemente nossos objetivos em valores.

Eu sempre entoei dizer que não acreditava em nada... e isso não é verdade. Eu acredito em apenas uma coisa, minhas folhas, eu acredito no amor. Acredito no amor de cada um de vocês, e na maneira com que podem usá-lo para conseguirem e se tornarem o que quiserem. O que nos torna capazes de fazer arte, é o amor. O que torna os homens capazes de se unir às mulheres, melhores em quase todos os aspectos, é o amor. Embora nem sempre demonstre, eu acredito piamente naquilo que cada um de vocês guarda e externaliza, porque é isso que dá a todos vocês a beleza em não optar por sofrer por um deslocamento pelo vento, ou felicitar por conhecer coisas novas. Isso é o que torna todos vocês humanos, que existem, secam, têm vontades e paixões. Vocês são como as folhas, e eu não assumo e nunca pretendo ser vinculado a um possível jardineiro - embora alguns de vocês me vejam assim. Nós todos estamos submetidos a um mesmo vento, que nos obriga a nunca parar de voar por muito tempo... e chegou a minha hora de voar. Em breve chegará a hora de todas vocês. Mas não fiquemos tão tristes. Quem sabe quando o vento tomará outra direção, e nós estaremos juntos mais uma vez, mesmo que em posições, colorações e estados diferentes? Quem sabe? Bem, eu ainda não sei. E por procurar essa e outras respostas, eu preciso seguir em frente. A última carta a mim mesmo termina aqui, já que agora eu levo cada um de vocês comigo... nervura por nervura.

P. s. : Vocês realmente me enganaram direitinho ontem, no único ponto em que poderiam: no amor. Não desconfiei um segundo da surpresa... muito obrigado, amigos!
P. s. 2 : É, agora finalmente o Sp/Pa Connection faz jus ao seu nome de fato. Que comece a nova fase de nosso blog!


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Primeiro parágrafo

E o vento soprou. Pouco a pouco todas as folhas levantam voo, ricocheteiam no ar, entre elas, comigo, e caem. Passei os últimos anos tentando decidir entre a beleza de se sair de um lugar para alcançar um novo com novas folhas e a tristeza de deixar as folhas antigas, devido à força do vento que lhe arrasta para longe delas. Enquanto as folhas caem, uma a uma, começo a me dar conta sobre a importância de cada uma delas para mim. Na última vez, a cidade mantinha tons de cinza, de monotonia e introspecção. Agora minha inspiração se deve unicamente ao fantástico brilho de cada uma dessas folhas... e chegou a hora de contá-las nervura por nervura. Este é o começo da última carta a mim mesmo, e é assim que eu começo a contá-la para vocês...

P.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Paredes brancas não paralelas, não alinhadas e congruentes

Estou imprensado por duas paredes brancas e translúcidas. Firme, porém flexível, ela me empurra contra a minha direita, onde está outra parede rígida e fraca. Cerro os dentes em desespero por não saber como agir, a dor lancina minha base à minha cabeça - isto não afeta como penso mas como ajo - e por não saber como pensar, ajo com os braços estendidos, pedindo desculpas por afastá-las, enquanto na verdade, tento apenas salvar-me do esmagamento.

Não é a melhor forma de se lidar com qualquer problema, porque em todos eles existe uma barreira para sua fuga, às vezes distante, às vezes vizinha, mas ela está lá. E estará sempre, não importa o quão rápido pense ou diga, por pensar rápido demais você acabará dizendo o que não foi mastigado devidamente. Esse dejeto que esbarra na parede branca te faz três coisas, do parar de fugir ao ter de engolir o que expeliu sem pensar - relações simples entre uma pessoa e outra. Mas a terceira define as coisas. A parede que te levou à fuga, lhe imprensa novamente.

Perder oportunidades de lidar com o primeiro obstáculo e transformar um segundo encontro em um maior ainda, são coisas adequadas para duas dores, e não apenas uma. Uma e somente uma é bem simples, tanto que você até acaba repetindo, porque acha que já se acostumou a lidar. Se e somente se uma for, não passará de "perdoo" e "desculpo", mas com uma parede branca colada em sua boca, as palavras tampouco saem, chegam à parede que faz doer sua espinha e roça em seus cabelos, se distorcem, voltando para a primeira, e assim dando origem à grande confusão: as paredes não são transparentes, e te fazem fechar os olhos, já que nada se pode ver através delas, e o mais bonito que elas te proporcionam só pode ser visto com os olhos fechados.

As palavras ficam mudas e seus braços escolhem apenas uma das barreiras. Mas a interação é forte demais e você é posto novamente com um ouvido e um braço em cada uma delas, mas seus olhos não se fixam em nenhuma. Eu não sei como escolher, e estrago tudo com as duas. Tropeço e caio sobre uma, seguidos pela outra, logo atrás. O baque, o choque, a dor e o escuro. Que dor desgraçada nesses dentes do siso, que me fazem agir como se houvesse alguém arrependido em cima deles e brigando com a dentição de cima para não acabar com a luz... de uma vez por todas.

P.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

X por x

Você continua batendo a sua cabeça até cair, causando críticas existenciais insuportáveis e problemas que vem para deixar esquecido o único problema que prevalece entre nós. Não entendo o que estou fazendo aqui. Talvez você se sinta como eu, mas sabe controlar seus impulsos mais tranquilamente. Não estou dizendo que não sou capaz de lidar com eles. Eu só me deixo levar naturalmente por meus instintos humanos. O que por sinal, deveria ser mais trabalhado pelos tais. Há casos em que a manipulação é algo completamente compreensível. E na verdade, manipular faz muito sentido para mim, mas se torna doentio. Quer saber quando uma pessoa realmente perde o controle?

Nos dois lados há desvantagem. No impulsivo, do qual chamo de ''meus instintos humanos'', você perde o controle a partir do momento em que acha que não pode conseguir algo, pois logo se desespera e age de uma maneira perturbadora. Por isso tento me manter sempre positiva, além de precisar ter uma mente continuamente calma, e não muito apressada. Já no pensativo, do qual chamo de ''manipulador demais'', você perde o controle quando pensar exageradamente antes da sua ação se torna um hábito. Você não precisa pensar o tempo inteiro. Pensar é algo realmente enlouquecedor. Mas talvez tudo isso seja uma ideia radical demais. É manipulador, pois já estou pensando muito.

Penso que tudo é acaso. O que dá errado pode ser culpa do ''pensar demais'' assim como o que dá certo também pode ser culpa do ''não pensar''. O impulso é algo que não te deixa escolha. Faça o que quiser, dará certo, não dará, não se culpe por isso, ponto. Siga em frente, sempre há uma próxima parada se você quiser chegar lá. As pessoas andam pensando tanto que já nem podem ser chamadas de pessoas. Eu penso demais, mas apenas depois dos impulsos. Meus pensamentos são bem existencialistas, assim como este texto. Depois da enxurrada, escrevo. Depois do que der certo, escrevo.

Logo após uma pausa para o cappuccino, de recordar de um meio termo e de reler os pensamentos redigidos acima... Vi-me encaixada entre estes dois planos; presa e livre dentro do meu próprio sistema impulsivo e ao mesmo tempo manipulador. Lembrei que uso impulsos milimetricamente pensados e observo no que essa manipulação resultará em meu trajeto de vida. Eu sou definitivamente um meio termo. Incontestavelmente geminiana. Penso que penso demais. Penso demais e pulso impulsivamente. Vejam só, quem sou eu para falar de auto controle?


B. tentando começar uma semana sem crises existenciais.

domingo, 19 de setembro de 2010

Bem[,]claro!

Da última vez que falei sobre isso, contava os minutos, os dias e os meses. Não tenho mais meses para contar. São apenas mais algumas semanas, e aquilo com que eu contei o ano inteiro não chega. Tudo irá ficar para trás, vida, pessoas, raízes... conto para ela tudo isso, e bem, não ouço comentário algum. Tive dificuldade em falar coisa alguma essas semanas, vocês bem veem que eu não venho aqui mais como antes, talvez possa explicar usando um conto aqui e um pocket ali, mesclando opiniões próprias com acontecimentos semanais em forma de energia. Mas provavelmente poucos de vocês irão realmente compreender algo - por razões já explicadas neste blog antes - então seria interessante, ao menos uma vez, ser direto.

Eu amo uma garota que não me ama. Age como quem sim e diz "como não(?)". Mas disso vocês já devem saber, há alguns meses. Eu venho passando a abominar incomensuravelmente qualquer tipo de culto a algo ou a alguém, e luto para não deixar meu pensamento anti-radicalismo se tornar radical contra eles. Sobra para os gnomos verdes, que assistem lacônicos e brincalhões ao molde de minha personalidade às pressas, e ainda precisam carregar o título de criadores quando são apenas criaturas. Mas disso vocês também já sabem há alguns dias.

Sem tempo para reflexão pessoal e interior, saturado de tanto conteúdo e relações absolutamente distintas, não sobra tempo para digerir razões e expressões, de voltar a desgostar de matérias mal exploradas e que te fazem perguntar: como alguém não enxerga algumas coisas e discute esse tipo de baboseira? Eu simplesmente deixo de ser humano para ser mais humano do que nunca fui. O conflito do que realmente somos em essência sempre foi levantado, e disso vocês sempre souberam, mas isso só é feito porque as perguntas realizadas são impróprias. Não importa o que é ser humano por definição, porque definições são tolas e vaidosas. Somos humanos quando conseguimos pensar unicamente e rejeitar tudo o que os outros homens acreditam e fazem, mas se nos excluímos desse grupo absoluto para criar outro, estamos criando nada além de mais um grupo humano, diferente dos outros. A tolice de se reunir em religiões ou ideologias lhe desune do resto das pessoas. E talvez disto vocês só estejam sabendo há alguns minutos.

Venho deixando-me mudar por causa dela, mas não por ela. Por mim. Por minhas ações, não pelo meu bem. Já que meu bem está tão perto há tanto tempo, mas o que é realmente o meu e nosso bem, nem mesmo os meses que me fugiram conseguem contar...

P., fica sempre bem, meu bem.

sábado, 11 de setembro de 2010

Dia virá...

Destruição em massa. Explosão nuclear dentro de um só corpo. Hoje em dia eles não usam lápis. Hoje em dia o nacional não existe mais. O sexo nunca esteve banalizado. Os políticos não politizam mais. O amor não é a cura. A doença é psicológica. A mídia só divulga o mesmo. As pessoas nunca divagam pelo mesmo lugar. O homem enlouquece. A mulher envolve dinamites em sua própria cabeça. A jovem toma um cappuccino. O gay escandaliza. A população paralisa. O feio se torna o belo. O estranho que nunca foi bem vindo toma o seu lugar com força. O cinema nunca foi igual. Nouvelle Vague sempre fez sentido. Os mais insanos conseguem entender. Os famosos ficam cada vez mais magros. Virá o tempo que a beleza será pobreza. Dia virá. Dia virá.

O estudo não valerá mais nada. Meus pés estão cheio de calos. Os professores desistirão. O presidente não será o mesmo. O preto e branco volta à moda. A morte gera a vida. A mãe se torna o pai e vice-versa. Os gênios são superestimados. Os comuns subestimados. Jesus Cristo volta a terra. Um homem beija outro. A onça ajuda o peixe. A santa é queimada. Os prédios são derrubados. Casas são construídas. A bolsa de valores está errada. Bicho preguiça se suicida. O sorvete derrete na mão da criança. A garota furta CDs por diversão. Almodóvar permanece invicto. A vida é desperdiçada. Virá o tempo em que a morte será bem vinda. Dia virá. Dia virá.

B.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Rossiânico

Escrever é ser lido por muitos, compreendido por alguns e entendido por apenas um.

Queria postar sobre o que me aperta durante esses tempos... mas acho que não vale pela falta de entendimento de todos os outros. Ontem eu parei para conversar com um belo gnomo verde, sabem, e ele me disse que não entende porque um cara desinteressante como ele foi escolhido para ser adorado por várias pessoas. Na verdade, ele nem sabe porque é verde, se ele inventou aqueles que criaram esse nome... "tudo bem", ele me disse, "a cor quem fez fui eu, mas quem me pintou com ela?"

P., se não acreditar em gnomos não tem nome, por que não acreditar em divindades significa ser ateu?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

229

A paisagem corria rápida enquanto eu me equilibrava sobre pernas cansadas e apertadas. Erguia os olhos para reclamar das duas, mas ao menos elas estavam no lugar certo, pensava - a constatação vinha com os braços erguidos em assalto, porém as mãos unidas e cerradas indicavam que eles que me sustentavam no lugar delas. Não era bem uma acomodação das melhores, era mais uma posição de sacrifício e de palavras deprimidas.

Alguns resmungos aqui e ali tiravam minha concentração das pressões sobre meu ombro, preferencialmente esquerdo, minhas coxas e meu peito. Com ou sem paisagens, essas regiões andavam sempre ocupadas, ora pela alça da mochila, pelo apoio para cadernos e folhas ou simplesmente pela angústia e cansaço. Às vezes, isso muda, é verdade, e apenas sua cabeça repousa em mim. Permaneço pressionado, no entanto, concentrado nas palavras que saem de seu nariz. E a sua respiração insiste em não acelerar... são apenas resmungos confusos que não vou conseguir entender, afinal de contas, estou esperando no lugar errado.

Tenho de dar uns passos para a direita, assim você fica mais confortável. Não importa se eu ande ou corra, para o lado ou atrás, você sempre fica à frente e imóvel. Ainda se gaba de não cair. Por mais que eu me sinta fraco, ainda estou em pé, esboçando alguns sorrisos sem vontade mas com todo meu coração. Todavia as pessoas preferem dar atenção às bobagens que passam na rua e às paisagens comuns e desinteressantes que suplantam as melhores coisas. Amar com os olhos ou sorrir com o coração são luxos que só existem em nossa cabeça mesmo. E a minha cabeça anda ocupada demais tentando distinguir se é só pelos livros, cadernos e mochila, ou se realmente eu tenho de descer daqui a pouco porque há uma pressão me empurrando para não parar de ir em frente. Eu vou acabar descendo minha cabeça... fico feliz de minhas mãos já estarem livres para deixá-la parada e sob controle, mas não mais imóvel. Minha parada chegou e lá vou eu.

P.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Post de aniversário!

YES! Agora é o P., muito feliz pelo Blog e pelo post da Bianca. Não importa muito o que eu gostaria de falar, tudo já foi mais do que bem dito - como sempre - por ela. Então não vou ser redundante, e só inteirar meus agradecimentos a todos vocês, que nos acompanham, mesmo sem nos conhecer ou tentando nos conhecer mais a fundo e acabam conhecendo mais a si mesmos aqui. É lindo demais ver que após 40 dias que colocamos o contador já temos 1000 visualizações e nos deixa pensando: imagine se ele estivesse aqui desde o primeiro dia.

Foi um ano absolutamente avassalador, a ponte entre dois anos bastante revolucionários - 2009 foi péssimo e 2010 deveras bizarro até agora, mas nós já sabíamos disso - e entre dois amigos cada vez mais distantes. O nosso intuito, na criação do Sp/Pa, era manter alguma espécie de laço entre nós dois, lembra, Bi? Aos poucos ele foi ganhando outra carinha, acumulando experiências, amores e sim, muitas dores. Sem contar as histórias que nós tentamos contar aqui, de nossa maneira própria e mudando essa maneira a cada post. E quando não tínhamos história pra contar, bem, nós inventávamos alguma.

O elo de dois amigos, amantes, parceiros, irmãos e livres de espírito engordou e englobou a todos vocês, leitores queridos. A conexão entre um Estado totalmente diferente de outro, que poderia ser distante e complicada, é a prova de que o menos importante é o tipo dessa conexão. Por textos pequenos e urbanos, profundos e amargos, tristes ou satíricos, não importa. Basta estar satisfeito com o que se faz para que dê certo. É isso que eu e a B. desejamos aos sppazeiros, que sempre estejam satisfeitos com o que fazem, porque só assim teremos força para seguir em frente e, após mais um ano dizermos: nós ainda estamos aqui. Porque nós queremos.

P., como um pai no aniversário de um aninho de seu filho. Com certeza os digitais são os melhores.

Post de aniversário!

É isso aí. Um ano de conexão São Paulo-Pará e o número suficiente de posts para te deixar contente. Ou deprimido, quem sabe. O importante é que fico muito feliz pelo falo do blog ainda estar de pé. Para falar a verdade eu nem sabia que o blog ia completar um ano, quem fez as contas, como sempre, foi o nosso amigo Pedro. Pra mim faz tanto tempo que esse blog existe -praticamente uma vida -, que até decidi dar uma trégua nesse dia e falar de maneira informal. Sem muita antítese, pleonasmo ou onomatopéia. Eu aposto que vocês nem lembram o que é isso. Pois é, e nem eu. Eu só sei que escrevo. Sei que amo fazer isso e só não faço quando me sinto na obrigação. Mas de qualquer forma, foi um ano de muita mudança pra todos nós. Aconteceram viagens de sol e de muito gelo. Tiveram muitas crises existenciais, discórdia e falso moralismo. E claro, todas as outras coisas boas que me soam muito maiores do que os problemas.

O mais importante de tudo é que ao longo desse ano ocorreram muitas mudanças no blog. Mudanças desde as mais superficiais, como as fotos, fontes e o background; até as mais importantes, como a nossa vivência, que assim foi modificando a nossa visão de mundo e obviamente interferindo e dando maturidade à nossa escrita. Fico muito grata a todos vocês, porque sei que de dez pessoas que leem o que está redigido aqui, pelo menos três ou quatro são leitores fixos, que estão sempre voltando atrás de novidade. Espero que nunca saiam desapontados dessa página, pois cada letra foi escolhida a dedo pra que possamos tornar a sua leitura mais agradável, e com certeza, a nossa também.

Eu queria muito poder concluir com um ’’Viva!’’ ao lado Pedro, mas infelizmente ele não está aqui comigo. Gosto de lembrar que esse um ano não foi só de blog, mas também foi mais um ano que me senti completamente feliz todas as vezes que estava ao lado do meu amigo. E depois disso, eu não tenho muito o que acrescentar além de: Feliz primeiro ano de blog! Obrigada por todas as pessoas que permaneceram ao meu lado e às que entraram na minha vida. Todos você acrescentaram coisas em mim e modificaram parte de pensamentos que aqui estiveram escritos. Obrigada aos nossos leitores, vocês são essenciais. Sejam sempre bem vindos, e um afago.

B.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Escuta-me por favor, porque eu não sei falar...

Sempre que eu vou escutar seus problemas, acabo dizendo os meus. Você me inspira confiança em não precisar de ajuda ou de ouvidos, talvez até seja taciturna em esquecer suas dificuldades com as minhas ganhando som. Isso é muito bom quando não se quer conhecer alguém. Eu passei boa parte da minha vida tentando saber quem eu fui aos dois anos. Até hoje não sei nem ao menos quem vocês eram.

Cresci recebendo críticas e cobranças, que quando não estavam lá, eu me incumbia de realizá-las. Não conseguia abrir-me com as pessoas pois elas não tinham nada que eu precisasse, eram somente pessoas comuns com as mesmas palavras, e eu não precisava de um espelho embaçado... precisava de um simples abraço. Dói perceber o espelho embaçado em mim, sempre distorcido e refletindo coisas de uma maneira própria, que poucos entendem e ninguém consegue aproveitar.

Mesmo limpando ao máximo, ele continua trincado, e vai ser sempre assim... trincando cada vez mais, até quebrar novamente. E os moldes de base serão os mesmos, sabem? Nós erramos repetidas vezes o repetido erro. Não há como aprender se ninguém compreende que você não sabe só ensinar. É o que estou dizendo a todos vocês agora, que tento contar meus problemas através de metáforas e histórias que acabam refletindo o que sinto, mas no fundo todos enxergam de forma embaçada, e daqueles que eu preciso dos ouvidos, tenho emprestados palavras e um abraço - mútuo e que nos faz mergulhar em silêncio e lágrimas. Pelo menos agora eu sei quem sou aos dezessete.

P.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O último post da Patagônia

Aqui um vídeo rápido (no estilo destas férias, pouco elaboradas e bem corridas) que retrata um dia de minha viagem, gravado e editado pelo pessoal da agência argentina. Agora são apenas lembranças, que estranhamente ainda nem doem como as do Vision, mas eu espero que em breve as coisas se acalmem e eu consiga enxergar tudo isso de fora...

Release da viagem.

P. em vídeo hoje.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Lar doce lar

Desde que deixei a paisagem árida e gélida da Patagônia - com caminhos demorados de ônibus e orquestrados por "Alibi", do 30 Seconds to Mars - sinto-me mais vazio do que antes. Uma terrível sensação de quem não consegue mais fazer poesia. Parei de cantar algo que não seja "I fell apart"... mas eu sempre erro o "but got back up again". Ultimamente sigo apenas fazendo piadas em poucas linhas, com caracteres e sentimentos reduzidos. Meus olhos não têm encontrado um olhar há vários meses, e é muito difícil ter de evitar a sua sensação preferida.

Em breve estarei de volta à minha casa, que depois não será mais casa... lar então, estou longe de encontrar. Não fora de mim. Mas comigo. Começo a sentir falta de um lar com outra pessoa. De olhar não para olhos fechados e pálpebras se movimentando rápidas, mas para um olhar que retribua o que penso. Aberto e sincero.

P., curtindo os últimos momentos de férias inesquecíveis, mas que dentro de mim convivem margeando as mesmas ideias de passadas...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Conexão três.

Tempo 1.

Escrevi uma música para você no avião. Enquanto congelavas no frio do sul seu rosto estava fixado aqui, permanente e contente, enquanto o mundo mudava tanto. Eu fechei meus olhos e tentei ouvir aquilo de novo. Aquilo que jamais sairia da sua boca. Tentei sorrir como todas as outras vezes, com todos os dentes, como todas as outras mulheres. Tentei relembrar dos sonhos, das crianças brincando e das flores no jardim ao lado. Mas nada me veio além das nuvens flutuando em volta deste avião. Nada me parecia belo além da sua figura em meu caderno.

(...)

Tempo 2.

Uma vez coloquei minha cabeça para fora da sua janela e vi a crueldade do mundo lá fora. Talvez seja por isso que eu nunca quis ir embora. A sua casa era mais segura do que a minha. Sempre foi. O meu chão era lá. Até porque eu me sentia bem com as folhas do inverno. Me sentia bem com a sua mãe, com a sua irmã e com tudo seu que me rodeava. Me sentia bem com você afinal de contas, mesmo sem trocar muitas palavras.
Agora é verão e nossa cidade está pegando fogo. Eu queria sair daqui depressa e esperar tudo passar. Só que eu não quero ir embora e cuidar só de mim mesma. Eu não vou simplesmente voltar para casa. Você me conhece, eu faria qualquer coisa. Mas eu não vou posso ir até aí (avise a sua mãe), é muito improvável cuidar de você nessa estação.

(...)

Tempo 3.

Quem sabe da próxima vez. Quem sabe nessa, na próxima ou na última a gente consiga. Quem sabe eu pare com essa atitude doentia. Se Deus quiser você volta e me entende. Talvez você precise ir para poder voltar. Voltar pra mim como nunca tinha vindo. Terminar de vir como nunca havia chegado. Eu gostaria que seus olhos mostrassem menos do que eu vejo. Eu queria que na próxima você arrancasse e guardasse, ou largasse de vez o meu coração.

B.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A conquista de mim mesmo




Malas arrumadas e já sentindo saudades das nuvens de sangue e fogo da Patagônia.
Porque às vezes nós precisamos encontrar o caminho sozinhos. Aqui eu renovei este pensamento, meu espírito e minha saúde. As palavras ainda estão se alinhando em minha mente... está tudo rápido demais e eu não quero deixar de sentir meu corpo por enquanto.

Todos os novos caminhos saem de um novo deus.

P.

A Patagônia ainda em conquista

@
Sigo aqui em Bariloche e redondezas. A "ilha perdida", como eles chamam, está realmente lotada de brasileiros. A natureza deslumbrante, a neve e tudo mais, são muito conhecidas por todos nós e se encarregam de nos trazer à cidade nas férias. Mas o povo argentino tem algo interessante, e muito positivo. Quem tiver um pouco de boa vontade em acompanhar as palavras rápidas e o ponderamento deles, vai perceber a insatisfação com as mudanças que o país vem sofrendo. Estive aqui há exato um ano e meio, e realmente o panorama é outro. Reclamam do sucateamento dos serviços públicos, da mudança de interesses dos grandes investidores, do altíssimo preço da carne que é consumida aqui dentro - de pior qualidade e beirando os 50 pesos (!!). A carne vermelha faz parte da essência do povo argentino, como o feijão faz da nossa. E o que eles têm de positivo é a visão aberta sobre as coisas. Não fazem questão de tapar seus buracos para não se rebaixarem aos brasileiros.

Outra coisa é nosso "sim, e daí? Eles ainda têm educação pública e serviços médicos de graça, de qualidade, e nós nem temos isso. Eles que se danem, estão reclamando de barriga cheia, afinal de contas." o que infere outra coisa: em que situação nós estamos então, que não temos nada disto? Os brasileiros aqui e em todo lugar respondem que pelo menos não fomos massacrados na Copa. Grande.

Há cinco anos quando passei a enxergar os problemas de outro lugar, eu consegui ver os problemas do meu lugar. Confesso que com o final da Copa do Mundo (esta é a última vez que eu falo dela aqui) eu fiz um post e ia colocá-lo no blog, com o que nós realmente fazemos e dizemos, e simplesmente não paramos para pensar. Mas não o fiz. "As pessoas merecem ficar como estão", foi o que eu disse no texto do polvo. E realmente, para os dois sentidos: merecem conviver com seus problemas sem conseguir admiti-los e ficar estagnadas para não conhecerem outras culturas e tirar sarro daquilo que elas nem mesmo têm.


P., esperando que o espelho do lago congelado continue mostrando como as coisas são até sexta-feira...

terça-feira, 20 de julho de 2010

A conquista da Patagônia

Diário de viagem @ começo

Voos atrasados em São Paulo. Voos atrasados em Ezeiza e em Aeroparque.
Eis aí o resultado.


Buenos Aires fria, cinza e pouco receptiva. Parece que os aeroportos argentinos estão mergulhados em um caos de horários, como o do Brasil ano passado. Não sei se é só um problema da companhia que eu viajei, espero que não, é mais reconfortante imaginar muitas outras pessoas dormindo em pé.

Logo depois, finalmente, a primeira imagem da Patagônia. Amanhã, subir milhares de metros e esperar somente por fotos maravilhosas.

domingo, 18 de julho de 2010

Noite nordestina.

Aqui venta tanto que parece chuva. Quer dizer, venta tanto, é pior que chuva, parece que o quarto vai cair. Parece que vai desandar e descer esse penhasco. É como se a água do mar estivesse nos esperando lá em baixo, tão enraivada que sai quebrando muro. Tão apressada que vai descendo rua. Tão rebarbada que afoga gente. E eu aqui, tão assustada como nordestino quando realmente há chuva. Tão mal acostumada que vou encolhendo toda. O coqueiro então, mal se segura no chão. As raízes estão ficando tortas diante dos meus olhos. O assobio das portas vai me deixando ainda mais amedrontada. Fiquei tão recatada. Encolhi-me de novo. Mas foi um dia tão cansativo que não há tempo para pensar em medo. Digo boa noite, beijo e abraço. A noite nordestina sempre me foi de agrado. Tenho tido sonhos cobertos de ouro.

B.

sábado, 17 de julho de 2010

A conversa brasileira

Em um improvável show de samba, parei para notar características bastante próprias do brasileiro. É engraçado como eles parecem ficar conversando entre autores, cantores e figurões de estilos e raízes culturais próximos, como MPB, chorinho e etc. Esquisito, a primeira vista desnecessário. As letras também são um espelho fantástico de nosso país: os versos refletem a identidade de nosso povo - intercalando expressões simples, chulas e clichês populares com umas metáforas malucas e profundas. Por fim, é uma grande troca de ideias imaginada entre personas absolutamente diferentes. A mistura tão nossa e tão bem representada pelo estilo que, talvez não seja somente o mais nacional pois é nosso, mas sim por ser nós.

P., em um rápido diálogo com um estilo que ainda acha chato, mas que viu grande semelhança com ele próprio. Em todos os aspectos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Polvanismo

Existem os tolos. Os adivinhadores por astros, fumaça e acaso. Também alguns palpiteiros, contadores de bravatas que arrumam números e teorias soníferas. As pessoas não merecem ouvir certas coisas, merecem ficar como estão, ao menos por enquanto. Então, no final de tudo, a Copa nos deu essa grande lição: o mundo para por um torneio de futebol e assiste e acredita em um polvo. O icônico de 2010, Paul.

P., nos tentáculos do polvo e entendendo como as pessoas conseguem acreditar em certas coisas, afinal de contas, ele nunca falha...


quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ignorância

http://www.youtube.com/watch?v=NvAuAc01sI8

Assim como isso foi pensado ouvindo essa música, gostaria que fosse lido da mesma maneira.

Percebo que deixei alguns detalhes passarem. Ontem fui à minha igreja. Ela estava escura e calma. Havia movimento em seu entorno, pessoas fazendo de tudo. Ninguém estava orando. O rio não passava energia alguma, nem a música, nem as companhias. Eu não ignorei, mas talvez tenha subestimado essas mudanças. As gotas que escorrem pelo vidro do carro têm o mesmo sentimento das que caem do chuveiro e esbarram no chão. Elas sempre foram absolutamente diferentes, com sentimentos distintos, mas agora elas são idênticas. Não é que as coisas parecem ter perdido a graça e tornado-se massantes, como os corações das pessoas que eu acredito. Uma crença que não acredita em nada... estava tudo errado desde o começo.

Mais um detalhe que eu deixei passar...

Eu ignorei alguns, é verdade, e talvez essa seja a razão desse problema com as outras coisas. Faltam-me bocas, mãos e pescoços. Palavras, ações e apoio. Eu realmente vou atrás delas e deles, mas parece que acabo ignorando o detalhe que elas já têm respostas, amor e companhia. O que esteve errado desde o começo foi a minha maneira de ser todos, mas não conseguir ser as pessoas que elas gostam. Simplesmente porque eu ignoro que possa existir alguém bom o suficiente para apenas ficar quieto e seguir.

Be quiet and fly, P.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Self Destruction.

Dependente de toda e qualquer forma que se pareça com a dela. Tentando não desmaiar cada vez que vê um rosto semelhante. Perturbada, sem saúde... Aflita (eu e ela). Com olheiras tão fundas quanto os buracos do seu coração. Inventando desculpas para encontrá-la. Mas dessa vez tão longe quanto moravam uma da outra. Viajando para tão distante como nunca imaginara. Rezando por um último beijo. Correndo por um último abraço. Chorando para não dar um falso sorriso. Tentando esquecê-la pela milésima vez. Destruindo seus sentimentos em longo prazo. Deixando de lado cada passo que deu para trás. Querendo saber como tudo aconteceu. Buscando entender como tudo ainda acontece - ainda que ela não esteja por perto - a mais de ano.

B. postando com a única tecnologia que lhe resta.

domingo, 27 de junho de 2010

O diálogo dos dedões

Encostei meus pés na água da piscina. Não queria me molhar mais do que superficialmente, então apenas as plantas deles dialogavam com o filme d'água. O sol estava realmente apino, refletia no fundo azulado e jogava minha visão para frente. Bem que poderia ser noite, pensei, não pela luz que incomodava, mas pelo que se era possível ver e doía. Bastante.

A dor não vinha de decepção ou desapontamento. Era tudo mais do que previsto, da forma com que sempre acontece. Como dizer não à teimosia da juventude? De minha parte foi dito. Como dizer não à juventude da teimosia? Relutante em dizer não eu fui, teimando em não aceitar um não e bem, meus dedões estão de prova: só não os afoguei ainda porque eu ainda quero ficar o mais seco possível.

Bem, decidindo não mergulhar, em que eu sentia ou na vontade de me matar, fui lidando como pude, com os que podiam de alguma forma entreter meus pés em obrigações e caminhos por percorrer. No fundo, normalmente só percebo meu espírito quando estou em meio ao caos. É interessante sentir o caos, que se alastra com os outros e compartilha-se através das mãos, das viradas e das palavras. Como é reconfortante sentir que não é só você que enxerga a beleza em meio ao barulho.

Realmente, outros também a veem e a disputam, mesmo que de forma inútil, mas ela não parece ser normal. E isso deixa meus dedões realmente agitados, querendo chegar perto dela e deixar de se esconderem, finalmente em busca de algo que valha à pena. A noite termina com o mesmo ofuscamento da tarde, sentir-me vivo só deu forças para acordar e morrer novamente nos dias seguintes...

P.

Terceira geração

Sim sim, nosso blog está de cara nova. Afinal de contas, as férias chegaram (ok, eu entro em férias oficialmente na quarta-feira, e nem tão oficialmente porque meu curso continua até as finais da Copa, - que também deveria estar influenciando o blog, mas nós não ligamos para futebol - e talvez esse Julho nem tenha muito de descanso assim) e nosso blog entra em ritmo de mudanças.

Parece incrível mas esse é nosso segundo hiato estudantil, e mais impressionante é nosso primeiro aninho em Agosto. A Bianca viajou na madrugada de sábado. Como ela foi de carro, provavelmente ainda está atrás de alguns cavalos e buracos na estrada. Poderia garantir a vocês posts assim que ela chegasse em seu destino, mas por infelicidade ela foi sem iPod ou outros aparatos tecnológicos. Resta saber se o tédio do carro não irá se perder junto com as boas inspirações que as paisagens e o chacoalhar da cabeça nos dão. Boa viagem, B.!

Acho que a união dessas coisas culminou neste novo layout do blog, ainda faltam o novo banner e uns detalhes, mas meu espírito fashionista decidiu que uma quebrada naquele esquema seria o ideal para as férias. Afinal de contas, mudar é sempre o melhor a se fazer, pois simplesmente indica que algo foi feito. Espero que tenham gostado.

P., postando seus relatos semanais logo mais.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Por outras (O texto sem nome).

Bem vês que eu não soube morrer por outras. O meu grande dia está chegando e quem sabe, se Deus quiser, você aparecerá de novo, crucificada em uma cama, cruel e realista; e distraída, eu espero. Porque logo irei pedir que me arranques a carne e me devolva o coração. Pois eu preciso dele bem vivo, caso contrário o que eu sou não irá aonde vou. E o que eu sou exatamente, você sabe melhor do que ninguém. Mas como sempre, abusaste da minha e da paciência de todos que um dia me ouviram falar em você, garota maldita. Onde você andou por todo esse tempo?

Em breve te encontrarei pelas ruas de novo, certamente com um poço escuro em baixo dos olhos que brilham. Embriagada como todas as outras vezes que te vi por aí - nada muito raro, eu sei -. E quando isso acontecer nem os remédios me adiantarão. Porque você sempre volta, como tudo o que já passou e voltou na minha vida. E então eu enxergo o que acabou renascendo de novo. Literalmente das cinzas. Dessas que caem do seu cigarro e rolam pela minha roupa. Deixando-me com aquela leve sensação de que... Eu te odeio – que novidade -. Mas bem vês que eu não soube morrer por outras. Me fizeste perder todo o juízo que eu havia ganhado nesse tempo sem você.

16-06-2010

B.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sou mesmo surpreendente

Minha vida se encaminha para as férias e o que eu mais quero é um break mesmo. Mas o problema nem são os outros, sou eu mesmo, atônito, não conseguindo mais falar o que poderia me confortar. Eu simplesmente não quero falar nada a você, escrever para vocês e amar ninguém. O fundamental agora é competir para as ações mais ridículas possíveis, ao menos elas ainda me surpreendem.

Ok, as pessoas ainda têm certa graça. Não sou mais cativado. Eu pautei minha existência em cativações. Fico com as coisas engraçadinhas. Até meu sarcasmo foi se perdendo, aquela velha transformação positiva para os outros e que me confina a ouvir coisas absolutamente surpreendentes... se é que vocês me entendem.

Em que eu fui me meter? Já disse aqui certas vezes que não me esforcei para sair e fui levado, agora dá para se ver melhor, de fora, e aqui dentro eu pareço bastante ridículo. Surpreendente. E o pior é que eu ainda vou amanhã. Resta sair em férias mesmo, e torcer para um retorno óbvio. Sem essas ridicularizações e tristeza, certo? Isso se não acontecer o mais provável, por mais incrível que pareça, obviamente será surpreendente.

P., murmurando junto com a Gardot:

"Boa noite, apenas feche seus olhos e esqueça de seu dia
Amanhã será um novo tão claro quanto as palavras
mas as ações são tão escuras quanto suas pálpebras fechadas
Então não ligue se seus olhos estarão cobertos
você não consegue ver nada mesmo, ah não consegue...
Boa noite"

domingo, 13 de junho de 2010

Plano cartesiano

Este é um post especial. Na verdade, é um contra-post. Eis o motivo dele:

http://justbeafraid.blogspot.com/

Há ao menos uns 10 bons motivos para escrevê-lo, e há um outro post borbulhando por aqui, que deveria ter sido feito ontem, mas não era hora. Nos últimos 10 dias, você caiu, desmoronou e desapareceu. Bem, limpa-se a sujeira, os escombros, toda aquela balbúrdia se forma nos primeiros dias, há discussão de projetos, nortes, enfim, você chegou à conclusão do rumo a subir. Rumo ao céu, a sua pretensão divina, passou dias tropeçando e derrubando. Há duas formas de se chegar lá: a primeira e comum, segue uma escada em caracol de palavras e pessoas, você precisa ter as palavras em mão, como os corrimões, e tem de manter os olhos nelas. Ora, é um problema, já que os degraus são feitos de pessoas, e você acaba chutando todas elas do caminho enquanto sobe. Mas você não percebe, porque as palavras te levam aonde você quer chegar e te impedem de ver os outros fracassando.

Ainda existe uma segunda: considerada egoísta - talvez porque não envolva os outros, como derrubá-los com o pretexto de apoiar-se neles mutuamente (pobres degraus!) em benefício próprio. Essa é extremamente complicada, já que seu tutor é sua verdade e seu guia suas escolhas. Mas há uma última grande diferença entre autro-construir e des(cons)truir: você tem um prazo para fazê-lo, já que o fará diversas vezes em sua vida, e não tem a vida toda como aqueles que seguem uma escada infindável. 10 dias foi o seu limite.

Perguntei a você se o céu foi atingido. "Sou um cego, só assim poderei alcançar o infinito, que é aquilo que não se pode ver." Você está no céu e não percebe. Seus sentidos recriados mudaram a própria concepção de sentido, agora novo e que ruma ao seu infinito tão desejado. Você não pode esperar as repostas para o que ela sente se você não conseguirá ver. Talvez ela sinta e você não consiga sentir. Talvez você já as tenha mas não consiga ouvir. Tudo isso é bastante complicado quando se está subindo, tudo isso te coloca para baixo, não é verdade?

Ohhh, e se, o objetivo de tudo isso não é subir ao infinito e sim, descer ao infinito negativo? Se o natural é você ser derrubado, porque tentar ir contra a própria natureza, já que parece não mais querer negar o amor e a paixão, tão in natura quanto o próprio sofrimento? O sentido de almejar os céus e a plenitude é fruto de coisas que você abandonou. Seus novos sentidos não devem se basear neles, e sim, em você mesmo. Responda: "Quem é o sentido?"

Então eu te digo para descer, rumar ao menor que pode ir, ao mais elementar e idiossincrético, ao simétrico de tudo o que existe aqui, pois essa sim é a realidade que você deve querer enxergar, e não o reflexo idiota que aqueles gregos tão idiotas quanto, diziam ser nosso mundo (ok) mas cuja realidade estava em um mundo abstrato superior (superior ao mundo medíocre, o que não acaba o tornando parte do mesmo?). Ainda chamavam de mito e de caverna. Cuidado com as escadas que levam para os dois.

Seria errado dizer "e por fim", já que o - infinito não aceita esse tipo de coisa, e também seria errado fazer deste texto o próprio infinito abaixo das abscissas - insuportável, quero dizer - então preciso que você continue com ele e com sua construção para o seu sentido certo. O arquiteto diz para não destruir o que já foi feito, apenas inverter, e suas costas ficarão voltadas para as respostas e para as palavras. Mas seus olhos estarão na direção certa que não te deixará mais cego, nem te fará acreditar que está sendo cego por que deseja. Simplesmente, não há como enxergar nada diante de uma parede branca de nome céu, muito menos, considerar a fossa como final de tudo e êxtase para uma subida. Atravesse-a.

P., arquitetando concepções.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O peso [de ser] do [todo] mundo

Eu não sirvo para essa história de centrismo. Nem para essa mania de liberalismo.
Todos expurgam seu ódio, inveja e humanidades nos outros. No fundo se odeiam e odeiam o que pensam e fazem, mas ninguém tem disposição para chegar tão fundo em nenhuma pessoa. Parecem todos se amar. Há meses falo sobre amor, redenção e reconstrução, vejam bem, vocês sabem disso, está aqui a todo momento de todas as formas que eu pude relatar, mas de quê adianta? Foi um ano de engrandecimento que não me levou ao lugar que queria chegar. Descartes foi tolo em instituir um caminho a seguir, aquele cartesianismo dele também não serve para mim, já que minhas escolhas esbarram nas dos outros. Mas ele não está sozinho nessa.

Será que todos esses tolos buscaram o equilíbrio e o centrismo para serem eternizados pela humanidade? Deve ter sido muito frustrante ter de morrer exemplarmente às custas de uma vida tão sofrida. E hoje ninguém segue seus exemplos, apenas os citam, em exemplos retóricos (desculpem a retoricidade). Mas eles não estão sozinhos nessa.

É, tem um outro figurão que essa mesma Humanidade (parte dela, ao menos) finge seguir. Queria poder dividir um bom café com ele, e perguntar-lhe como posso passar dos 30 anos buscando esse maldito equilíbrio. Mas ele me deixou sozinho nessa. Já faz tempo.

Eu queria gritar uns bons palavrões, ouvir um hajime e lutar. Voltar a me envolver e desenvolver tão facilmente, mas agora tudo está tão parado e difícil, realmente me saturei e não consigo mais enxergar tudo o que via antes. Ando andando em linha reta pelas minhas escolhas, até o princípio delas, nos trechos de "faço isso porque te amo de verdade, e quero te ver apenas bem..." e vejo que mais uma vez, as pessoas simplesmente preferem suas conveniências. Não adianta em nada entregar todo meu coração - o que não é novidade, faça-me me o favor! - já que ninguém tem disposição para chegar tão fundo, até ele... o peso de ser todos em um só parece ser demais para eles e centralizador por demasia para mim mesmo...

P., banzônico, é verdade, mas logo tudo se centraliza e eu volto a ser todos vocês, novamente, sozinho. Muito bem acompanhado por pessoas maravilhosas, também é verdade, mas sozinho.

sábado, 22 de maio de 2010

Essa é a minha maneira.

Eu gostaria de te mandar um origami, sabe, eu bem que gostaria. Mas eu não sei como dobrar o papel, nem mesmo como dobrar o que eu sinto e fazê-lo diminuir de tamanho, algo mais simples de se lidar, que tal umas duas ou mais pequenas frases, que possam ser ditas entre suspiros ou mesmo escritas com as mãos trêmulas? Mas elas também não são tão fáceis assim, meus dedos balbuciam e gaguejam, e não conseguem dizer o que eu gostaria de representar com um origami. Algumas coisas que eu já te disse me impedem de fazer com que esse pedaço de papel chegue até você, ao menos de forma direta, então encontro uma maneira em que consiga ver mesmo sem demonstrar. No fundo eu sempre acabo representando algo que não me decidi se é difícil de dizer ou de contar...

Sobre você e para você, largo a tentativa de origami de lado, deixando as palavras dentro dele emudecidas, confinadas aquele que te vê mas não é visto. É melhor acreditar que é culpa das más escolhas de lugar e tempo, duas palavras que acabam sendo muito parecidas, não acha?

Ora, que coisa mais boba explicar a razão disso, é tão fácil demonstrar que as duas corresponderam a todo meu amor sem corresponder ao que sinto. No mesmo lugar e no mesmo tempo inadequados. Parece mesmo que essa não é a melhor maneira.

P.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Semana de indigestão

Tudo continua muito indigesto para mim. Pensei que houvesse melhorado. Mas parece que não. Nenhum refúgio serviu sozinho ou acompanhado. Filosofia que não explica humanos, cabelos longos que não dizem nada sobre os homens e fé, que te mostra parâmetros de ninguém. Todas essas, que acompanham alguns que se sentem sozinhos, que dão solidão aos que estavam acompanhados, no meu caso, de nada adiantaram. As semanas se findam como um violino que escorrega sempre da mesma forma, que desafina, e volta a tocar da exata mesma maneira.

É complicado olhar para sextas-feiras e reconhecê-las em todos os outros dias. Afinal de contas, elas são dias de avanços e mudanças positivas, ao menos é o que minhas companhias deixaram de si mesmas comigo. Mas o que realmente ficou em mim é notar que tudo permanece da mesma forma, doendo e indigesto, onde toda insistência em mudança provoca esse tipo de refluxo interminável.

Resta vomitar tudo isso que eu tento engolir há alguns meses, talvez seja o que me atordoe e cause náuseas, então talvez eu fique bem. Mas aí significa que eu terei desistido de tentar arrumar alguma companhia novamente, e só me restará as três de sempre, só que esses cabelos não têm quem eu mais preciso. E se eu me livrar de tudo pode ser que piore, porque tudo já pode ser eu mesmo e eu nem percebi ainda, ou por não conseguir admitir, fique tudo tão indigesto assim...

P., (em semana de infecção estomacal), insisto, desisto.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A terceira carta a mim mesmo

Após duas cartas escritas a mim mesmo decidi que esta seria a última, ao menos por hora. O que é bem engraçado, já que na mesma hora que decidi escrevê-la já conjecturei a realização de uma última, que é derradeira não por drama, mas somente pelo que nela estará contido da forma mais pura e integral que eu poderei me expressar. Não costumo pensar no que ainda irá acontecer e como se dará, tampouco assino o que escrevo com data, pois penso que não somos feitos de fases, e sim nós que as fazemos... mas esse caso é diferente. A última carta a mim mesmo tem data. A última carta a mim mesmo, será minha, para todos aqueles que ficarão comigo.

Mas antes de um final definitivo, creio que seria justo um final para esse dia. De manhã foi ela, à tarde ele, e com o cair da noite eles finalmente se tornariam um só...

Ela já havia finalmente deixado a reclusão de seu quarto, de sua introspecção e meditação. Tomado seu banho, coisas a fazer já feitas, acompanhava o pôr-do-Sol com desinteresse, correndo as unhas demasiadamente compridas pela mureta da sacada, observando os carros, as pessoas e as nuvens.

Ele se sentou na areia, mergulhou os dois pés na água e fitou o céu. A sensação de ter corrido tanto atrás dela sem propósito algum ainda era muito difícil de ser posta em uma viagem de volta. Ele havia ido longe demais, ao menos para aquele cara que não costumava mudar sua rotina e vida, de poucos quarteirões e de poucas pessoas. Levantou-se amargurando a noite que começara, amargurando tamanha distância, e decidiu que era hora de voltar para casa. Mesmo que já não fosse mais hora para encontrá-la, ele e ela (isso era certo) lembravam da noite passada, o que poderia ser algo atenuador, pensou ele.

Enquanto isso, a sacada e o Sol cor de sangue pareceram ter tornado-se desinteressantes para ela, que costumava enjoar rapidamente de tudo, já que cobrava a mudança das coisas mas acreditava que nunca mudaria... em alguns aspectos. "Quem parece não mudar em alguns aspectos , é ele!", pensou, olhando o relógio e se perguntando quanto tempo mais teria de esperar. Que letárgico.

Nesse exato momento, P., acreditei que ele caminhava firme, não mais correndo, mas traçando o mesmo caminho para voltar e encontrá-la. Também era muito bonito pensar que ela o esperava, e que tanto tédio só estava ali porque ele não estava... entendendo nada direito. Um pouco antes de terminar esta carta, resolvi ir ao prédio dela, acompanhar o encontro deles. Mesmo que a noite já durasse um tempo razoável, eu não podia deixar de perder isso. Mas houve um problema. Desde o ínicio houve um problema. Confesso não ter entendido, ou achar que estava entendendo, mas eu não estava... entendendo nada direito.

P., sempre esteve envolto em ilusão, não importava se fosse tarde, ainda sim parecia estar sem enxergar nada. A pessoa que ele corria atrás nunca lhe retrebuiria com dez passos em sua direção. Desde que ele colocou seu coração nela, a cada tarde ele corria para mais e mais longe dele. Perdendo-se de si e afastando-se dela.

P., sempre estive à espera dele. Como dói pensar que acreditei tanto em algo que com o tempo mostrou-se apenas uma tola ilusão... infelizmente parece que mesmo de manhã, resolvi usar os olhos errados para tentar ver.

P. sempre esteve achando que após o término de um dia, um totalmente novo nascia, trazendo consigo novos problemas e novos amores, mas foi tolo em não perceber que a cada nova manhã ele amanhecia na mesma cama vazia, tendo de percorrer um longo caminho até encontrá-la sentada em uma mesma cadeira, sendo abandonada e provocando uma corrida que nunca terminava. P. sempre voltava para o início. Sempre voltava do mesmo final. Assim como este final não existe, já que termina para um mesmo começo, o início de novo nada tem, além de começar de novo o mesmo de antes. Foi essa união que tentei unir a mim mesmo, em três cartas que narram uma história que só existe em meu interior... Como destinatário e remetente, assumi posições de pessoas que nunca tive na vida, de ouvinte ou acalentador, e busquei conforto em quem nunca me negou. Em mim mesmo. Pois todas as vezes que corri atrás de alguém, que depositei meu coração em outrem, eu sempre estive à espera de que o próximo dia começasse melhor do que o fracasso do passado... Resta esperar pelo futuro da quarta e última carta a mim mesmo.

P. (ainda confuso pela profusão de "eus"), que tive de ser três em uma história que eu queria apenas dois, e não percebeu que ela nunca esperou por ele, mas sim por quem realmente tem uma história vista por seus nobres olhos castanhos...

(O não-texto) Não obrigatório.

''Guardei um pedaço daquele rosto. '', foi o que ela disse. É engraçado como conciliamos pessoas com algo agradável ou característico delas. Há pessoas que me lembram sorrisos, mas sempre tenho várias expressões em mente, e dentro dela eu tenho corpo, andar, pele, olhos e sinais. Há pessoas que nos lembram músicas. Há músicas que nos lembram pessoas... Tem gente que vêm para nos deixar mais vivo. Tem vida que vem para nos deixar mais gente.

Há um som que me lembra Bethe, há um livro que me lembra Camila. Há muita coisa ao redor e para cada uma que olho me vem alguém, ou melhor, expressões na cabeça. Quaisquer que sejam. Eu poderia passar o dia todo aqui, montando uma lista de pensamentos incansáveis. Mas aí eu seria obrigada a dizer que tem beijo que me lembra Arissa e tem carta que me lembra Sol... Que tem pedra que me lembra Pablo e tem texto que me lembra João. E é nessas horas que eu seria obrigada a dizer para você, leitor, que isso aqui não é um texto obrigatório e que você realmente não precisaria ler. Porque seria atordoante ler um texto como se lê uma lista de super mercado.

Mas só para citar mais uma vez... Tem despedida que me lembra Drika e tem blog que me lembra Pedro. Acontece que se fosse uma lista, de fato, seria pesado e cansativo, assim como minhas memórias, mas tudo que eu vejo aqui flui extremamente calmo e sorrateiro. Você vê, tem coisas que eu não esqueço, mas prefiro não transformar em uma lista. Para mim, esse texto é apenas uma lembrança. Esse texto não é um texto. Isto aqui é apenas corpo, andar e pele; talvez olhos e sinais. Tem coisas que não voltam mais. Tem dias que a saudade vem. Tem dias que eu apenas não ligo. Não-textos como esse são apenas conciliações de letras com alguns sorrisos, pensamentos repentinos e flashes de imagens coloridas, em preto e branco ou em câmera lenta.

B.

domingo, 2 de maio de 2010

A segunda carta a mim mesmo

Ah, minha querida, me fez tão bem ler o que você escreveu. Fico contente que você finalmente, pelo que parece, tenha encontrado alguém que a ama... Fico contente mesmo.

Ontem à tarde, estava com tanta vontade de sair que resolveu ir correr. Ele costumava correr sempre - o que poderia descartar qualquer tipo de suspeita - mas não foi bem o que aconteceu ontem. Logo depois de acabar de acordar, ele saiu pelas ruas. Não parecia ter direção - o que reforçava qualquer tipo de suspeita, já que nunca passava de alguns poucos quarteirões, em círculos, como quem tem vontade de correr para longe, mas perto o bastante caso mude de ideia - muito menos com companhia. Mais uma vez, era algo extremamente normal, ele nunca tinha companhia para correr, apenas um velho par de velhos tênis, uma camiseta e uma bermuda, daquelas que você repara e pergunta para os outros se repararam como elas vestem mal, de tão bem parecerem ter sido emprestadas para aquela pessoa não andar nua por aí. Mas parecia que ontem ele não iria andar, iria correr mesmo. E continuou. Passou de seu bairro, passou de seu canal, curioso e verídico, e prosseguiu correndo. Só podia pensar que era um Forrest Gump, aquele tolo que percorria o mundo pelo simples prazer de nunca parar de correr.

Ele deixou os limites da cidade, acredita? Parava apenas para olhar o céu, e ver a tarde morrer quieta, devagar, O Sol ao alto que não queria ceder, observava atentamente essa pessoa que resolveu sair de seus limites para alcançar outra. Bem, se O Sol não soubesse a razão de ele correr tanto, quem poderia saber, se parece que nem ele mesmo sabia. Mas continuava a correr o risco de se perder em meio à tolice de uma estrada que ele nunca havia pisado, muito menos tentado vencer. Ou melhor, havia pisado apenas uma vez, e foi jogado para fora dela, quando estava mais apaixonado por aquilo tudo, uma ligação o pegou e o obrigou a parar a corrida, e disse: "a estrada acabou". Ainda teve a coragem de dizer que "é preciso força para enxergar que a estrada vai além do que se vê..." Essas palavras então, nunca sairiam de sua cabeça, até o dia em que resolveu provar a si mesmo, que essa força realmente existia, mas que deveria levá-lo a esse final da estrada.

Já era noite quando parece ter chegado, sentiu o cheiro do sal, uma leve maresia o cutucou, fez coçar seus olhos, e ele parou. Quando finalmente conseguiu se livrar do incômodo, ergueu a cabeça e olhou para a praia. Pisou na água e disse para o mar: "Eu falo de amor porque é com você que eu quero falar." Mas ninguém se encontrava ali. Parece que ele havia corrido tanto por tanto tempo e ela desvincilhou-se dele. Estranho, ele dizer isso para um monte de água, não? Tão inútil quanto tudo o que ele fez até aquele momento...

É, P., isso meio que embolou um pouco as coisas, eu sei. Mas fiquem tranquilos, porque a noite havia apenas começado a cair, e ele só precisava de um pouco de força para enxergar a estrada de volta à manhã em meio à escuridão...

P., transcrevendo a segunda, e penúltima, carta que enviei a mim mesmo...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ilustre e fosca.

Eu não posso ser fiel a tudo. Estou interpretando um personagem cheio de defeitos. Cheia de defeitos, interpreto a mim mesma. Decidi mergulhar em minhas ideias, mas estou indo tão fundo que na escuridão desse oceano vou sendo caçada por grandes peixes. Desisti de pensar em como irei voltar para casa, a partir de agora, apenas vou. Talvez eu não volte mais, pois estou desistindo de casa também. Eu me perco em minhas palavras, estou esquematizando o tempo todo. Então é aí que me esqueço de cada plano em uma sequência, pois nunca anoto nada, nada além de pequenos trechos de memória salvos nos rascunhos do meu celular.
Há alguns dias que durmo com o amor em minhas costas, assim, tão repentino, sem o peso de uma cruz. Ilustro prédios e imagens foscas. Ilustre garoto, de onde você veio? De certa forma, essa não é a minha pergunta mais importante. Suponho que assim terminará a minha noite, com a única certeza de que a qualquer momento uma resposta virá – certamente, como um balde de água fria.

B.

domingo, 25 de abril de 2010

A de alquimia.

Agora só me falta a razão. E interpretem como quiser. Interpretem como se eu assemelhasse a vida a um quarto organizado. Não, não é isso. Nunca foi. Como sempre, me expressei mal. Mas o que será? Há tanta coisa acontecendo e eu não penso em estar com outra pessoa. Então o que virá? Não é possível. Ou apenas é? Eu só sei que é muita pergunta. Talvez esteja realmente acontecendo. Talvez seja tão perfeito quanto parece. É só uma análise, mas quem sabe você chegou na hora certa, porque em um temporal como esse tudo estaria caindo sobre a minha cabeça. Em tempos como esse eu faria mais besteiras do que o normal. Eu não falaria de um grande dia, eu viveria como sempre em tudo o que já passou. Eu estaria amando e desamando gente. Partindo - na maior parte do dia - e sendo partida todas as noites.

Aonde eu queria chegar é exatamente onde me perdi. E quando começou? Já estamos aqui sem pernas cansadas, então me olhe mais uma vez de sorriso bem atento. Eu adoraria ouvir de você quaisquer que fossem as palavras. Eu não quero escrever aqui como sempre escrevo, de maneira alguma. Eu não quero te sentir como senti todas as outras. Nem em mais doloso crime eu te mataria por estrelas. Eu estou calma. Amanhã desesperada. Depois calma e logo em seguida, como se eu não me conhecesse tão bem, estarei morta de tanto sentir. E para ser mais sincera, eu menti. Naquela poltrona o frio não me consumia, eu me tremia simplesmente por calafrios que rasgavam quase toda a minha pele por estar com você. Faltava pouco para não sentir os meus lábios e as suas mãos esquentavam as minhas como nenhuma outra havia conseguido.

Erro meu falar enquanto é cedo demais. Certa vez ouvi alguém dizer algo como: ''O problema é que as pessoas têm medo, e eu não. '' Você estava certo amigo, as pessoas têm medo, eu tenho medo, mas você também tem medo e não sabe disso. Não tente arranjar desculpa para todas as suas ânsias. O sangue escorre dentro de minhas veias e eu tenho medo. Se tudo saísse como esperado, eu teria mais medo ainda. E agora deitada no escuro, procuro apenas parar de imaginar meu celular tocando. (...) Ok, meu celular acabou de tocar no exato momento em que escrevi isso e mais uma vez sinto medo pela ironia do destino, mas de qualquer forma... Tudo bem, agora tenho a sagacidade de dizer que já não sinto medo, não nesse instante. Ainda estou adormecida por todos os beijos que recebi naquela noite. Nada levará embora o que eu sinto, até que alguém realmente me acorde... Quem sabe.

B. esperando um balde de água fria.

A primeira carta a mim mesmo

Acabo de acordar. Sento-me em minha cama e olho para o lado direito do quarto. Ou será esquerdo? Não sei, não sei mesmo. Sinto-me meio que confusa. Ou confuso? Droga, algo não está certo. Continuo percorrendo as paredes e vejo um vestido amarrotado sobre uma cadeira. Vou até ele e o observo melhor: era estranhamente macio, e bastante cheiroso, devo dizer, como se jamais houvesse sido vestido. Mas, observando melhor, parece que aquele cheiro tão bom não vinha dele, e sim de um pequeno vaso de flores que estava na mesa, flores amarelas, vermelhas e de uma cor que descendia dos mais nobres castanhos, como daqueles olhos pesados e profundos, que nunca te fitam, simplesmente pegam seu coração e o colocam em um lugar onde se você subir para pegá-lo, irá cair. Continuo com o vestido na minha mão direita - parece que agora já sei o que é direito - e com a outra mão pego uma das flores, a mais vermelha delas, e vou até a cadeira que antes era vestida pelo vestido, e nesse momento, serve de apoio intermediário de alguém que não pode voltar a dormir mas também não tem vontade de sair pela porta do quarto.

Repouso o vestido e a flor em meu colo, cruzo os pés, estico os braços e solto um longo sinal de preguiça. Inclino-me para trás, passeio as mãos pelas paredes, que são bem mais frias ao toque do que eram ao simples olhar, o que é bem cômico, porque são como os homens, que você sente-se feliz por se manter longe o suficiente para não sentir a frieza com que eles dizem adeus... Mas as mulheres também são assim, afinal de contas.
Enfim, não acho que isso é hora de ficar dando atenção a isso, tenho duas coisas tão simples, distintas e preciosas em minhas coxas e que merecem mais minha atenção do que homens e mulheres. Volto a me inclinar com a cadeira para trás, posso ficar ali o dia inteiro, incauta e sem ter de ver o Sol por completo lá fora. O cheiro e a imagem, do tecido e da flor, me convencem a vestí-lo, mesmo quando o pijama pareceria mais adequado (só agora me dou conta de que dormi sem roupas essa noite, o que não é comum). Até que a porta se abriu. Era ele que entrara, e com as mãos sobre a cadeira que eu havia abandonado, disse: "Finalmente o vestido, a flor e meu coração são uma coisa só..."

É, meu caro amigo, não havia entendido no momento, que tudo aquilo não passou apenas de uma descrição de algo tão simples, quanto a mulher que ele ama usando um mero vestido florido...
Saudades, meu grande - a cada dia com maior certeza disso - amigo, P.

P., transcrevendo a primeira carta que enviei a mim mesmo...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Longe de vocês e Longe de nós

Falo com a certeza da saudade que me aperta de dois lados: saudades dos que estão longe e saudades dos que ficarão longe. Essa mesma certeza, por incrível que pareça, difere-se bastante daquela de uns 5 anos, quando eu pensava já ter entendido tudo de saudade. O que se posteriorou em meses de tristeza e melancolia, parece agora se anteceder em meses de medo e tristeza. Em comum, com aquele garoto de 5 anos atrás, apenas a tristeza. Talvez nem tão comum assim, mesmo que muitos sintam, é diferente de mim, que sinto agora por muitos... Mas o medo é novidade, nem tão recente, mas o de perder sempre havia sido tão ausente...

Engraçado por não chegar a ser medo de perdê-las, é de perder o que elas têm comigo, de nos perder. É de perder nós. Mesmo que isso signifique reconquistar vocês. Quem me dera poder ser plural sempre, podendo me incluir nas pessoas que eu bem quisesse. Quem me dera poder me conjugar como desejasse, sendo nós e vocês. Gostaria de saber até quando conseguirei ser eu em primeira pessoa e em primeiro lugar...

P., ouvindo "Eskimo" - Damien Rice, fica aqui a frase da música:

"I look to my eskimo friend
When I'm down, down, down."

sexta-feira, 16 de abril de 2010

13:55

Eu tenho um pequeno intervalo entre lágrimas para escrever aqui... Sabem, quero apenas dizer o que me faz estar tão desse jeito, em solidão e desamparo, aquelas que o Gikovate gosta, mas eu quero e meio que não consigo... entender como me desapego depois de tanto sofrimento e me apego ao sofrimento de não conseguir com que ela se apegue a mim. Acho que faz parte, uma vez me tornei mil mosaicos e a figura que me tornei agora, depois de recolhê-los, recriá-los e "aperfeiçoá-los" é simplesmente tola, ciumenta e falha. Hoje não quero ter nenhuma certeza - como se eu ligasse para certezas quando quero ter alguém - como se eu conseguisse mudar ao ponto de acreditar - que posso ter - alguém - quero apenas ficar com a certeza de que choro, porque ainda me restam lágrimas para derrubar...

P.

domingo, 11 de abril de 2010

...e na Terra.

Bem, isso é um pouco complicado... Já que o impossível apenas nos respondeu que a verdade está entre nós. Parece que a mensagem que estava no céu daquele cara, era a de que, qualquer ideia que façamos do céu ou do Tártaro vai ser sempre errônea... Talvez nem errada, mas simplesmente, será nossa ideia, não como indivíduos, mas promulgada como coletividade... como cultura e tradições. O que era dos gregos antes de um Novo Testamento, se não tolos e pagãos? Equivocados? Por terem suas visões sobre tudo? E o que nós fazemos, então?

Achamos que no inferno seremos condenados a perder nossas emoções, que seremos escravizados e punidos, punidos por ter usado de emoções por demais em Terra, então, vamos lá, livrem-se desse mal e fiquem apenas com a razão. Se em Terra pretendemos nos livrar de sentimentos, já que são ruins, de luxúria à vaidade, inveja e blablablá, porque no lugar destinado ao castigo nos tiram essas coisas e nos deixam em razão? E como o céu é um lugar bondoso e puro, se essas são paixões tais como vaidade? A ideia que nós temos de usar exclusivamente as emoções é absolutamente reprovável, não? Seremos tolos, pecadores e errados. Tornar-se-á então necessário distinguir essas coisas tão "discongruentes", certo? Razão e emoção? Joguemos as emoções como representação do coração, e a razão do cérebro. Pronto. Agora, digam-me se as duas não têm o mesmo fundo, a bem da verdade? Se a vontade de bater não é oriunda de alguns centímetros da de ajudar. Ambas do mesmo cérebro. Para que separar então, a razão dos sentimentos, em lugares tão opostos, como o inferno e o céu, se entre eles há nós, os homens e a Terra, e se razão e sentimento são no fundo a mesma coisa... Podem pestanejar e brigar, já que essa afirmação abre o precedente para que céu e inferno também sejam a mesma coisa... Pois eu penso que sim, razão e emoção são as mesmas coisas, são nada além de nós. Assim como inferno e céu, são nós mesmos. Podem tentar separá-los, como eu fiz nos textos um e dois, mas dá para perceber, que se isso for feito, não seremos mais humanos. Pois somos compostos indistintamente de razão e emoção, de alma que é as duas coisas.

E os dois lugares não podem existir depois que morramos. Caso contrário, como poderemos imaginar como tais locais são, se a forma com que os vemos se dá enquanto fazemos uso de nossa razão e sentimentos? E se morrermos e ainda pudermos fazer isso, o que é a morte então, se não uma mudança de ares?

P., mudando de ares...

...do céu...

Pois finalmente cheguei ao céu. Finalmente. Uma vida dura, de sacrifícios e suor, de bondade e devoção, finalmente me trouxeram aqui. Ok. Com quem será que eu falo? Não vejo ninguém. Nem ao menos uma fila, sabem, uma mesa que seja. Nem cornetas. Será que me mandaram para o lugar certo? Ou estou numa espécie de julgamento? Um teste, quem sabe? Será que estou sendo observado? Não vejo ninguém ainda. E ainda estou com minhas roupas... Nada de túnicas brancas. Bom, é verdade que eu nunca vi isso, mas acho que seria o mais adequado. Acho que vou caminhar... mas para onde ando? Oh, uma luz se acendeu ali! Bem, vou pra lá então. (...) Droga, não consigo me mover. Meus pés estão presos e pesados. E começaram a doer. Parece que meu sobrepeso com a altura do céu está mais difícil de ser carregado... hahaha. Ok, isso não é hora pra piadas, vamos lá. E vocês também, vamos lá! Cadê as pessoas? Não consigo ver ninguém... cadê a bondade, meus parentes, a Joana? Ela morreu em acidente de carro, era pura e devota, impossível não ter vindo parar aqui! Não era essa a ideia que eu tinha de céu, sabem, então façam-na valer. Ou vocês querem se passar por mentirosos? Eiiiii!!! Alguém pode me escutar! EIIIII!!!

Quanto tempo será que já passou? Eles não cumprem horários? Que saco! Opa opa, ei, você aí! Até que enfim alguém, você é uma figura abençoada mesmo, oh, fico feliz por estar finalmente aqui. E aí, qual é meu quarto? Não, deixa isso pra lá, diga logo onde está deus, quero finalmente entrar em reunião com ele, se é que você me entende... Você não vai me responder, seu paspalhão!? Cadê deus?!

- Está dentro de você.
- Sim, isso eu sempre soube... mas agora estou perto dele, sabe, no mesmo lugar.
- Você é deus.
- Ah, você só pode estar de brincadeira, né?! Que tipo de brincadeira é essa, se você não sabe me informar de verdade, vou procurar alguém que sirva. Olha, acabou de aparecer um samaritano ali, vamos ver se ele é bom! Ei, colega, você pode me dar uma informação, por favor?
(...)

O que é isso em sua testa? Oi? Pera, deixa eu ler, olha pra cá. Você está bem?! Olha pra cá!

"Se você morre, e vem para um lugar que foi descrito por palavras, por sensações e gestos, por memórias e cantos, então você não vem para um lugar criado por nenhum Deus, e sim, por você mesmo. Ou simplesmente copiado de outros que o criaram. Se você crê que terá consciência de que morreu, e de que foi para o céu, então você não terá morrido e ido para lugar algum, apenas mudado de lugar e permanecido em mesma condição de homem. Embora ache que creia, faz uso da razão, pois está em um lugar onde você imaginou as pessoas com quem conversara e de quem não obteve respostas. Pois elas não estão em você, de qualquer forma. Elas estão apenas entre a humanidade..."

Do Tártaro...


"Quando abre sua mente ao impossível, às vezes, encontra a verdade."

"Impossível saber a verdade sobre algumas coisas."

Bem, foi o que me disseram hoje. Eu resolvi não concordar nem discordar com nenhuma das duas, vejam bem, essa foi uma semana difícil, de grandes dores. Tentem ler a série de textos que irei postar livres de crenças, discriminações ou pré-noções. Leiam com o fundo de seus corações, já que engraçados somos nós, seres que atribuímos mente ao coração, sentimentos à razão e ainda brigamos com as duas coisas. Dispam-se de sua humanidade. Impossível?
Quem sabe não encontremos a verdade.

Ontem, tive a infelicidade de percorrer o Tártaro consciente. O que na verdade me parece ser o motivo daquilo tudo, e que se torna bem contraditório, já que após alguns anos você começa a perder sua consciência e a se tornar qualquer outra coisa, menos um humano. Sabe, aquelas suas emoções que você tanto gosta? Vão todas embora.

Sentei ao lado de um rapaz, devia ter uns 40 anos de Hades (depois de uns cinquenta e poucos, até mesmo sua aparência vai embora, e não sobra nada além de uma fina camada luminosa), então ainda havia um pouco daquela imbecilidade humana em seus olhos, algo do tipo "vamos organizar um hell break", mas, como nós gostamos, suas palavras contradizeram o que seus olhos diziam:

- Eu não quero perder minhas emoções... se isso ocorrer, me tornarei um crápula de verdade... não que eu seja lá essas coisas, você sabe, ninguém vem aqui por acaso, mas eu ainda me arrependo e esse tipo de coisa, e o que eles fazem aqui é inumano, eles transformam almas de homens em pedras sem sentimentos...

Eis aqui o Tártaro. Lugar de sofrimento eterno, de privação e destruição das emoções, onde apenas sua consciência e razão continuam presentes, para que você possa sentir cada dia como uma eternidade de tempo... Eis aqui o Tártaro.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre ser.

Andei pensando em humanos, em ser, em tudo o que se é por direito. Pensei em como comer uma maçã sozinha é extremamente normal enquanto comer uma maçã ao lado de alguém especial se torna extremamente grandioso e memorável. Andei pensando em como um dia chuvoso pode se tornar inacreditavelmente agradável enquanto há pelo menos uma mão onde se possa segurar. De fato ser não é um só. De fato no ato de ser não se pode ser sozinho. Assim como esse texto não poderia ''ser'' com uma palavra só. Ele deveria no mínimo estar sendo representado por uma frase completa, que necessita de algumas outras palavras, que de certo modo nem precisariam fazer sentido, como a palavra amor, que nunca fez nenhum sentido para mim e sempre me pôs a pensar e escrever sobre ela. Esse texto seria totalmente auto explicativo se eu apenas falasse '' De fato ser não é um só. '', e então mesmo que de tão curto não pudesse ser chamado de texto, eu não precisaria dizer tudo o que disse no início do mesmo, pois você mesmo já se colocaria a imaginar.

Mas parando para pensar agora, ser sozinho às vezes é essencial, assim como sozinha a palavra ''ser'' é totalmente auto explicativa. Por exemplo, caminhar por aí como fiz hoje, olhando para o céu, rodando pela praça e tomando sorvete sozinha é apenas ser, um ser sozinho, mesmo que estejamos inteiramente acompanhados por coisas que, de alguma forma, passam despercebidas por pessoas pelo fato de serem simplesmente tão... Simples, como um sorvete de nome tão significativo como céu azul, e ninguém percebe. Ou como o céu azul lá fora, que durante o dia apenas ''é''. É simples, encantador e despercebido, mas quando se torna escuro, todos sentem a sua falta. Então é aí que vejo o quanto estamos sendo esnobes, tanto com o dia quanto com a noite, deveríamos dar uma trégua a eles, pois são eles que nos trazem os pensamentos mais alucinógenos, intuitivos e certas vezes proibidos para os demais. Sensações de temor, horror e paz espiritual. E é aí que mais uma vez, apesar de tudo, o ser humano definitivamente não merece ser um ser sozinho. Enquanto isso, pelo menos eu, pelo simples fato de estar sendo, não me passa pela cabeça dar mais importância no ser acompanhado ou no ser sozinho, eu apenas sou, sou durante o dia, durante a noite e durante tudo o que me parecer importante, ou apenas simples.

B.

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Convencido e a Convencida


Vocês já pararam para perceber como as coisas mais opostas são determinadas por minúsculas diferenças? E essas pequenas coisas provocam enormes outras coisas. Cético e Crente, têm o mesmo número de letras. Homems e mulheres são muito parecidos por fora também. Isto é, se você os comparar a lagartixas.

Um dia desses, um convencido entrou em embate com uma convencida. A convencida, era crente naquilo que dizia e convencida por ser quem era. O convencido era cético daquilo que ouvia e de ser o que era. Como uma conversa entre um cego e um surdo, um se recusava a ver enquanto o outro parecia nada ouvir. A convencida de nada ligava para os argumentos dele, pareciam todos ridículos e incabíveis, sabe, "o que diabos aquele cara está tentando me fazer ver?", o que, não era simples para um convencido, de que poderia reverter a situação, algo que era visível na pequena diferença entre exteriorizar um pensamento que a convencida apenas orava: "eu só posso estar ficando surdo, não acredito que essa maluca fica dizendo essas bobagens!".

Sei que há um pouco de confusão aqui, entre eles, e entre como tudo está sendo contado - uma cega que não diz nada, mas faz um surdo ouvir - e um surdo que não mostra mas faz uma cega enxergar. Cega que era convencida de que muito via, mas fechava os olhos para aquilo que não a interessava, e um convencido de que pode interessar a todos, mesmo os já convencidos de que podem não saber, mas acreditam...

Parece que por fim, o Convencido de sua derrota, deixou a Convencida fazer o que faz de melhor, fechar os ouvidos para aqueles que não a convencem... e dizem, para não se convencer da vitória antes que o fim deixe de apenas parecer, e passe a existir. E como eu sei que ele existe se não o alcancei? Acho que apenas me convenci disso. Resta a mim, agora, crer.

P., 2250 minutos, de 7200, observando e ouvindo, convencidos e convencidas...

domingo, 14 de março de 2010

Que chova todo dia...

Hoje choveu. Fazia tempo que não chovia. Antes de chover, saiu Sol. E depois também, o que foi bastante impressionante, já que fazia algum tempo que tudo estava muito nublado. A chuva se tornou mais forte, eu calcei meus tênis e saí. Corri. Tornei-me carro, rolei pela relva e gritei: "eu estou vivo!" Não havia muitas pessoas na rua, quer dizer, pelo menos eu não as via, me perguntei se também estariam se sentindo vivas ou se, simplesmente, a chuva era forte demais para elas. Foi no último dia de Sol, que eu comecei a me tornar forte demais para mim mesmo, e isso me trouxe problemas. Loucura.
Minha loucura trouxe a chuva, a sanidade e o Sol. O único caminho, parece, para encontrar a sanidade é se perder em meio à loucura. Eu passei uma semana difícil, em busca de paz e sanidade, eu apenas procurei alguém que pudesse dividir minha cama comigo. Mas esse alguém só divide sua cama com o medo. Eu queria alguém para tornar meus princípios, nossos princípios. Mas ela já tem os dseus princípios. Por fim, quem veio dividir a cama comigo, foi a loucura. Inclusive, antes de chover eu chamava de leito...
Foi tudo bastante sutil, não sei se morri, se o carro que passou me atropelou ou apenas me molhou, se eu estava rolando na grama ou morro abaixo, não consigo distinguir, ainda não estava molhado o bastante para recobrar minha sanidade e perceber que sim, eu ainda estava vivo.

Vida engraçada essa, que vivemos apenas para continuarmos vivos, mas só percebemos que o estamos, quando estamos prestes a morrer. Vida engraçada essa, que nos reserva loucura para recobrarmos a sanidade, que nos reserva amor para lembrar que ela o tira de nós quando bem entende. Vai entender essa loucura...

P., que estava louco o suficiente para não se perceber no filme "Ilha do Medo", mas que precisou de um banho d'água fria para notar que não era filme, apenas a lembrança de sua semana...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Azul Marinho.

É engraçado. Aqui na beira da piscina eu inclino minha cabeça e vejo metade de um céu que não é meu, claramente indo embora. E a outra metade vai se escurecendo, ficando do meu tom, bem azul marinho. Logo a primeira estrela da noite aparece. Ela que é tão pequena comparada ao sol ou a lua e tão grande comparada a mim. Olho fixamente para aquele ponto de luz apaixonado e faço um pedido. Não sei se esse é o certo, um pedido à primeira estrela da noite, mas isso não importa, porque eu sempre o fiz e tornou-se hábito acreditar em algo assim, tão inefável. Então, também pela primeira vez, não pensei em um pedido relacionado a você. Digo, pensei. Mas justamente pela arte de pensar - dessa vez o certo - que não quis que você estivesse incluída nele. Não quis que você invadisse o céu que naquele momento era todo meu. Não quis te tornar real ou mesmo imaginária de novo. Não quis que nada desse certo e sim que desse tudo errado, dessa vez, sem você. Nesse instante o céu se escurece por inteiro, tornando-se azul marinho por completo. Agora mesmo ele não é todo meu, ele é mais do que meu. Mais do que meu assim como a rosa que ganhei. Mais do que meu assim como o objeto que me roubaram. Sim, me roubaram agora à tarde, mas esse objeto sempre será meu. Já a rosa, um belo homem me presenteou. E esse homem, por mais que nunca seja meu por completo, será sempre o meu eu, a metade que me enlouquece. E a outra metade que sempre será minha, mais do que minha, bem, ela agradece muito encantada.

B. observando as estrelas. Dessa vez, na beira sacada.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Plim Dois

Agora sim. Observar é escrever.

Observei essa semana, algo bastante interessante. Como as relações pessoais mudaram substancialmente nos últimos quinze anos. Insônia e dor de cabeça, são coisas que surgiram junto com o sono e com a nossa própria cabeça. Mas o que fazíamos (ou faziam?) quando elas estavam presentes? Hoje, o que estou fazendo? Bem, estou sentado em frente ao computador contando para as pessoas. Falando com elas, com eles, de diversas formas e com diversas finalidades. Todos sabem agora que estou sem conseguir dormir e com a fronte latejando. Alguém liga?
Tem um cara me dizendo que não consegue dormir também. E daí? A mesma coisa que o capitalismo fez/faz/fará com os bens de consumo - aquela história, "veja bem, isso aqui é ótimo, se você não tiver vai ser apenas um fracassado, igual aquele paspalhão da sua sala, então compre", fez/faz/fará com nossas relações pessoais. Após três meses, lá vem nosso sistema regurgitar em nós - "todo mundo tem isso, deixe de ser ridículo e compre logo o novo, repare nessa linha lateral nova, é nova mesmo, veja a diferença que ela faz" - e bem, nós não estamos sendo enganados, simplesmente vamos lá e compramos. Mesmo que a linha seja apenas uma idiotice desnecessária, a nossa mercadoria também é, então, vamos trocá-la por uma nova. Mas se é desnecessária, por que pegamos outra então?

Soa mais estranho ainda com pessoas. Temos nossos amigos queridos, confiáveis, acolhedores e etc. Conforme crescemos, temos amigos pílulas, sim, pílulas. Você escolhe para onde ir, e com quem ir. Você tem amigos das mais variadas gamas de gostos, costumes, modos e nichos sociais. Você pode ir à qualquer lugar, praticamente, e poderá escolher uma pílula, vá em frente, você a toma, mas amanhã, novo dia, novos lugares e novas necessidades. Ligar? Sente, escolha e tome. Decisões?

Não. Essas nós observamos. Fugimos de decisões, observamos e criticamos quem as tomam. Obviamente, pelo dom da observação, escrevemos nosso azedume depois.

Escrever é observar.
P.lim.